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A ferramenta foi desenvolvida para ampliar o acesso a informações sobre eventos extremos e apoiar pesquisas, planejamento e gestão de riscos na região |
Lajeado (RS) — Documentos reunidos em diferentes locais, relatos de moradores guardados apenas na lembrança, planilhas de pesquisas acadêmicas dispersas em diferentes instituições. Por mais de cem anos, a história das cheias do Rio Taquari foi registrada, mas nunca reunida em um único lugar. A lacuna começou a ser preenchida de forma acadêmica, ao longo das últimas décadas, e mais recentemente, com a composição de séries históricas.
A agora a informação ganha condições mais fáceis de acesso com o lançamento da plataforma digital "Memória e História Hidrológica da Bacia Hidrográfica do Taquari-Antas", uma iniciativa que organiza dados oriundos de pesquisas científicas sobre os eventos hidrológicos que marcaram a região ao longo de mais de um século. A plataforma pode ser acessada por meio deste link.
A Bacia Hidrográfica do Taquari-Antas ocupa cerca de 26,4 mil quilômetros quadrados no nordeste gaúcho e, segundo dados de 2020 citados pelo projeto, abriga aproximadamente 1,38 milhão de pessoas. É para essa população, que viveu de perto os desastres de 2023 e 2024 e que convive historicamente com o risco de novas cheias, que a plataforma se dirige.
Na primeira etapa da plataforma, o destaque é a série histórica dos níveis alcançados pelas cheias do Rio Taquari na cidade de Lajeado, maior centro urbano da bacia sujeito a grandes eventos de inundação. Os dados cobrem o período entre 1873 e 2025, cobrindo mais de 200 eventos, e foram consolidados a partir de estudos científicos publicados em 2024, passando por processos de levantamento, tratamento e validação técnica.
Dois gráficos resumem visualmente mais de um século de história do rio. Um mostra a ocorrência de eventos por ano, picos como os sete registros de 1983 e 1984, ou o conjunto de quatro ocorrências em anos como 1990, 2003 e 2020, convivem com longos intervalos de estiagem relativa, em que apenas um evento foi contabilizado.
Outro gráfico apresenta a distribuição dos níveis oficiais atingidos pelo rio a cada ano, com marcas que oscilam majoritariamente entre 15 e 25 metros, mas que, em anos críticos, como 1941, 2023 e o recente pico de 2024, que ultrapassaram os 29 e até os 33 metros, os eventos mais extremos da série.
A expectativa dos pesquisadores é que o site cresça de forma gradual, incorporando novos documentos, mapas e dados à medida que forem validados, consolidando-se como um repositório da memória dos eventos hidrológicos regionais. “A proposta assegura que as experiências vividas pelas comunidades do Vale do Taquari, muitas delas marcadas por perdas e traumas, não se percam com o tempo, e possam servir de base para que as pessoas desenvolvam uma relação mais consciente com o rio, servindo também como fonte para o desenvolvimento de ações de prevenção diante de futuros eventos”, destacam os idealizadores do projeto Sofia Royer Moraes e Lucas George Wendt.
O site também apresenta o Mapa Cidadão, iniciativa criada após os eventos extremos de maio de 2024, com base em experiência desenvolvida em setembro de 2023, por uma força-tarefa reunindo o Instituto de Pesquisas Hidráulicas da UFRGS e a Univates. O levantamento combinou reconhecimento em campo, análise de imagens de satélite e cruzamento com modelos digitais do terreno a registros enviados pela própria população, um exemplo da aproximação entre ciência cidadã e conhecimento técnico que perpassa a produção acadêmica dos dois pesquisadores do projeto.
Onde hidrologia e memória se conectam: os antecedentes do projeto
O projeto é assinado por dois pesquisadores da Universidade Federal do Rio Grande do Sul (UFRGS): Sofia Royer Moraes, doutoranda em Recursos Hídricos e Saneamento Ambiental, também docente na Universidade do Vale do Taquari - Univates, e Lucas George Wendt, doutorando em Ciência da Informação. A dupla, que já vinha trabalhando separadamente com aspectos técnicos e documentais das enchentes do Taquari, uniu hidrologia e informação para transformar registros dispersos em um repositório acessível a pesquisadores, gestores públicos, educadores e à própria população atingida pelas cheias.
A trajetória de Sofia Royer Moraes com o tema das cheias do Taquari remonta a quase uma década. Ainda na graduação em Engenharia Ambiental na Univates, ela dedicou sua monografia, em 2016, ao mapeamento das áreas e edificações atingidas pelas inundações do rio na área urbana de Lajeado, um primeiro exercício de sistematização espacial que viria a se tornar uma marca de sua produção acadêmica.
Nos anos seguintes, a pesquisadora aprofundou-se em diferentes frentes ligadas ao comportamento do rio, tendo participado de estudos em diferentes frentes: identificou áreas urbanas suscetíveis a inundações, investigou a relação entre o fenômeno climático ENOS e a ocorrência de cheias em Lajeado, e analisou o tempo de retorno estatístico das inundações, ou seja, a probabilidade de novos eventos extremos ocorrerem em determinado intervalo de anos. Já no âmbito de colaborações mais amplas, integrou estudos sobre a antecedência mínima necessária para previsões de inundação em Lajeado, ao lado de nomes como Walter Collischonn e Fernando Fan, referências nacionais em modelagem hidrológica.
O ano de 2024, marcado pelo desastre climático de setembro de 2023 e, principalmente, pelas enchentes de maio, redirecionou parte de sua produção para a consolidação histórica. Foi nesse contexto que Moraes liderou a revisão e consolidação da série histórica dos níveis das cheias do Rio Taquari em Lajeado, primeiro cobrindo o período de 1939 a 2023, e depois ampliando o recorte para 1912 a 2024, o mesmo conjunto de dados que hoje sustenta os gráficos e a base disponibilizadas na nova plataforma. Também nesse período, participou de estudos de retromodelagem de eventos extremos, como o de julho de 2020, e de análises sobre modificações no leito do rio e seus impactos sobre as inundações, além de contribuir para um artigo internacional sobre o caráter excepcional do desastre hidrológico de abril e maio de 2024 no Sul do Brasil.
Paralelamente ao trabalho técnico, Moraes passou a atuar também na interface entre ciência e comunidade. Coautora de estudos sobre ciência cidadã aplicada às enxurradas e inundações de 2023 e 2024, e sobre a experiência de pesquisadores voluntários na comunicação de riscos durante o desastre de 2024, ela vem consolidando uma trajetória em que o dado técnico se conecta cada vez mais com a participação social e a educação para a resiliência climática, um percurso que caminha na direção do projeto de memória agora lançado.
Wendt contribuiu com a perspectiva da Ciência da Informação e dos Estudos de Memória. Sua produção recente concentra-se na reflexão sobre como preservar, documentar e comunicar memórias de eventos climáticos extremos, um campo que ganhou urgência após as enchentes que atingiram o Rio Grande do Sul em 2023 e 2024.
Entre seus trabalhos mais diretamente ligados ao tema estão publicações sobre desastres naturais, emergência climática e memória, sobre a urgência da memória diante das enchentes de setembro de 2023 e maio de 2024, o papel da memória em eventos climáticos extremos, também refletindo sobre tecnologias de informação e comunicação para a preservação virtual de memórias traumáticas; e a importância de fontes documentos para preservação da informação em hidrologia.
Wendt e Moraes já haviam somado esforços antes do lançamento da plataforma atual. Juntos, publicaram um estudo sobre ciência cidadã em desastres hidrológicos aplicada às enxurradas de 2023 e às inundações de maio de 2024, além de uma reflexão sobre educação e comunicação como estratégias de resiliência frente a eventos climáticos. Mais recentemente, apresentaram um trabalho especificamente dedicado às séries históricas de cheias no Vale do Taquari, discutindo as contribuições da Arquivologia para a constituição de uma memória documental dos eventos hidrológicos da região, texto que funciona quase como a fundamentação teórica do projeto agora tornado público.
Crédito texto: Lucas George Wendt/Projeto Memória e História Hidrológica da Bacia Hidrográfica do Taquari-Antas
Crédito foto: Divulgação